Um bordado. Transitando entre dados e personagens históricos, referências literárias e artísticas e bases conceituais da psicanálise freudiana, Alessandra Affortunati Martins tece um caminho argumentativo singular que se sustenta em um pano de fundo amplo. A partir de dois fios, a autora produz um entrelaçamento argumentativo que faz uso da psicanálise como modo de leitura, fio azul que conduz o texto e, ao mesmo tempo, em seu avesso, realiza uma leitura crítica da teoria psicanalítica, fio vermelho que permite colocar em questão algumas derivas clínicas. Nessa direção, apresenta um texto denso e coeso – um bordado com belas imagens –, que não perde sua verve crítica. A sublimação é, então, apresentada como reveladora e conciliadora da ordem instituída do mundo e como possibilidade de destruição do existente para que advenha uma criação. Caminho semelhante parece se mostrar na relação entre psicanálise e lógica patriarcal: emergindo desse solo, a psicanálise produz um mapa que revela as fraturas de seu tempo e que nos serve de guia para, talvez, construir outras possibilidades políticas e clínicas.
Suely Aires
Psicanalista, doutora em Psicologia Social e do Trabalho pela Universidade de São Paulo (Bolsa Capes – USP/2015) com período sanduíche na Alemanha-Berlim (ZfL). Mestre em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica (Bolsa Capes – PUC-SP/2004). Formada em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP/2007) e em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP/1999). Em sua pesquisa de pós doutorado pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH-USP) e pela Birkbeck, University of London (bolsa Fapesp), dedicou-se ao estudo da categoria de estrangeiro em Freud e Walter Benjamin. Atualmente, é pesquisadora na Cátedra Edward Saïd (Unifesp), onde ainda estuda a categoria de estrangeiro a partir de perspectivas decoloniais. Tal pesquisa, centrada nessa categoria teórico-clínica não identitária – o estrangeiro –, tem orientado atendimentos em grupo e individuais realizados pelo Projeto Causdequê? (Casa do Adolescente/SUS), voltados atualmente para questões de classe, gênero e raça. É membra do grupo de trabalho (GT) de Filosofia da Psicanálise da Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia (Anpof), do Grupo de Estudos, Pesquisas e Escritas Feministas (Gepef) e da International Society of Psychoanalysis and Philosophy (ISPP).
Saiba mais
Prefácio
Gustavo Henrique Dionisio
Introdução
1. A Viena fin-de-siècle: o teatro social do Império Austro-Húngaro
2. Modernidade e melancolia
3. O declínio da imago paterna: a sublimação e a escrita psicanalítica
4. A subversão pelo feminino: Gustav Klimt
5. Romantismo: exaltação do mundo interno
6. Um paralelo entre Freud e Goethe: o mito e a sublimação em As afinidades eletivas
7. A escrita da psicanálise freudiana: a presença do pai na ruína do patriarcado
Referências